A Esposa Do Meu Pai – Capítulo 3 – “Conversas Traumáticas Que Nenhuma Criança Deveria Ouvir”

O ano de 1984 estava apenas começando. Minha avó ainda demoraria muito para voltar de Santa Catarina — talvez nem voltasse mais. Minha irmã seguia estudando como se nada estivesse acontecendo, mas eu já não conseguia me concentrar. Comecei a faltar às aulas, cheguei a passar duas semanas sem aparecer no colégio. Passava os dias andando por aí, perdido em pensamentos, até que fiz amizade com Júlio, um garoto da minha idade que morava na rua de trás e estudava no mesmo colégio. Diferente de mim, ele se dedicava mais aos estudos, embora também faltasse de vez em quando.

Júlio tinha um irmão mais novo, Wilian, de apenas sete anos. A mãe deles, separada do pai, trabalhava em um hospital. Com apenas dez anos, Júlio já demonstrava uma responsabilidade incomum: ia sozinho para a escola, cuidava do irmão, cozinhava o básico e mantinha a casa em ordem. Muitas vezes, depois das aulas, nós jogávamos bola na rua ou simplesmente conversávamos. Aos poucos, fui conhecendo outros garotos da vizinhança e minha rotina se transformou: eu e Patrícia íamos ao colégio às sete da manhã, saíamos às onze, almoçávamos em casa e, à tarde, eu me encontrava com Júlio.

Às oito da noite, minha mãe chegava do trabalho, quase sempre acompanhada de sua amiga Dolores. Ela me tratava com tanto carinho que eu sentia até remorso, pois, no fundo, não gostava dela. Foi Dolores quem começou a levar minha mãe aos forrós, que logo passaram a acontecer em nossa própria casa. Eu detestava os finais de semana, pois sabia que, a partir da tarde de sábado, nossa casa se enchia de amigos e amigas da minha mãe. Bebiam, conversavam e dançavam até de madrugada. Muitos dormiam lá e só iam embora no domingo à noite, quando finalmente eu tinha um pouco de paz.

Dolores e Cristina …. Que dupla.

Numa dessas madrugadas de sábado, eu estava deitado com Patrícia na cama de casal que antes pertencia aos meus pais. Dolores e minha mãe dormiam ali também, enquanto Jaílson, que parecia ser o novo romance dela, repousava na cozinha. Foi nessa época que comecei a sofrer de insônia — um problema que me acompanharia por toda a vida. Levantei para beber água e percebi que minha mãe não estava na cama. Seguindo os sussurros e gemidos que vinham da cozinha, deparei-me com uma cena que me deixou transtornado: minha mãe envolvida com Jaílson. Eu mal compreendia o que era sexo, e encontrá-lo dessa forma, tão abrupta e traumática, foi devastador.

No domingo seguinte, passei o dia inteiro de cara fechada, incapaz de olhar para Jaílson ou para minha mãe sem sentir um misto de amor, raiva e repulsa. Ela percebeu minha tristeza, mas eu disfarcei, dizendo que era apenas preguiça de domingo. No fundo, minha revolta crescia contra Dolores, que havia apresentado esses homens à minha mãe.

A semana começou e, como de costume, não consegui me concentrar na escola. A cena não saía da minha cabeça. Continuei cabulando aulas, vagando sem rumo. No sábado seguinte, Dolores apareceu novamente, agora com um namorado novo, e trouxe Jaílson junto. A música alta e a bebedeira me incomodavam, mas, de repente, meu pai chegou. Ao vê-lo, senti uma alegria imensa. Ele queria nos levar ao parque Cidade da Criança, em São Bernardo do Campo. Patrícia ficou eufórica, mas eu recusei, incomodado com a presença da namorada dele. Apesar da insistência de todos, mantive minha decisão. Mais tarde, arrependi-me, pois fiquei preso em casa, atormentado pelas músicas e pelas conversas.

Jamais esquecerei o que vi naquela madrugada.. Minha mãe e agora um outro homem se….

Quando meu pai voltou com Patrícia, tentou me confortar, dizendo que respeitaria minha vontade e que, com o tempo, eu aceitaria sua companheira. Patrícia, encantada com o passeio, falava animadamente sobre Solange, chamando-a de “amiga do papai”. Isso irritou minha mãe, que a proibiu de mencionar o nome da mulher em casa. A discussão gerou um conflito entre ela e Jaílson, que a acusou de estar com ciúmes. Eu, secretamente, gostei da briga.

Os dias seguiam nessa rotina pesada: bebedeiras, amizades estranhas e namoros que mudavam como roupas. Para piorar, minha avó em Santa Catarina já não podia nos ajudar financeiramente, pois gastava muito com os cuidados da bisavó doente. O dinheiro ficou curto, e a pensão do meu pai mal dava para o básico.

Muitas vezes eu estava no meu quarto e ouvia as conversas da minha mãe com Dolores. Nessas conversas, descobri coisas absurdas sobre meu pai. Minha mãe dizia:

“Roberto teve um caso com uma freira. O pessoal do convento descobriu e foi um escândalo.”

“Ele também se envolveu com uma dentista perto de casa. Iludiu tanto a coitada que, depois de ser abandonada, ela tentou tirar a própria vida.”

“Descobri que Roberto se relacionava com duas irmãs gêmeas da favela em frente. Dormia com as duas ao mesmo tempo…”

Eu ouvia tudo aquilo e não acreditava — ou não queria acreditar. Como meu pai fazia essas coisas e ninguém ficava sabendo? O que significava “ter um caso”? Por que dormir com duas mulheres ao mesmo tempo? E a dentista? Como ninguém soube?

Mas o pior foi quando escutei minha mãe dizer:

“Eu peguei o Roberto espiando minha irmã, a Neuza, tomando banho. Ele sempre fazia isso…”

Fiquei chocado. Meu pai espiando minha tia, minha madrinha? Eu sempre fui muito apegado a ela e ao meu padrinho Antônio. Desde os seis anos, passava férias na casa deles, em Campinas. Depois da separação dos meus pais, aqueles dias eram os melhores da minha vida. Eles me amavam e cuidavam de mim de verdade. E eu lembrava bem como meu pai admirava o tio Antônio. Então, como podia fazer algo tão nojento? Espiar a própria cunhada, esposa de um amigo que ele respeitava?

Meu tio Antônio , minha tia Neuza (irmã de minha mãe) e meu querido primo , André.

Essas revelações ficaram martelando na minha cabeça por dias, meses, anos… até hoje penso nisso. Mas nunca comentei com ninguém além da minha mãe.

Um fim de semana especial, meus padrinhos vieram para São Paulo: tia Neuza, tio Antônio e meu primo André, de dez anos. Nossa casa era pequena, mas demos um jeito. Foi um sábado maravilhoso, e o domingo ainda melhor. Não houve visitas indesejadas, nem música alta, nem bebidas. Minha mãe avisou a todos para não aparecerem. Por coincidência, meu pai chegou na hora do almoço. Ficou radiante ao ver Antônio e Neuza. Passamos o dia rindo, conversando, lembrando do passado.

Mas minha cabeça não parava: era estranho ver meu pai tão à vontade com meu padrinho, sem que ele soubesse que sua esposa havia sido espiada. E quando meu pai falava com a tia Neuza, eu só pensava: “Se ela soubesse…”

No fim da tarde, todos foram embora. A tristeza voltou. Meu pai foi o último a sair: me abraçou, abraçou Patrícia, deu um beijo no rosto da minha mãe e partiu. Uma hora depois, Dolores chegou com Cristina, uma nova amiga da minha mãe. Para minha surpresa, Cristina viria morar conosco por um tempo.

Meu Deus..

Meu pai espiando minha tia Neuza tomando banho…

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