
E agora, com Cristina morando conosco, as noitadas e o número de homens que eu nunca tinha visto na vida só aumentaram dentro de casa. Minha mãe já estava no terceiro namorado desde que se separou do meu pai, e eu nem me lembrava do nome dele.
Para piorar, Sônia, ex-esposa do meu tio César — irmão caçula da minha mãe — começou a se aproximar dela. Em pouco tempo, já estava frequentando nossa casa também. O pior é que, mais tarde, descobri que Sônia tinha ido para a cama com meu pai enquanto ainda era casada com o meu tio César. Mas essa história eu conto depois.
Às vezes, fico imaginando como minha avó reagiria se soubesse de tudo aquilo. Minha irmã nem esquentava a cabeça; para ela, era tudo normal. Eu, porém, não conseguia aceitar.
De repente, minha vida virou de cabeça para baixo. Meus pais se separaram, meu pai abandonou minha mãe para ficar com outra mulher, minha mãe começou a ter vários namorados, descobri que meu pai espionava minha madrinha durante o banho… Vi situações que não posso descrever aqui por questões legais e éticas. Vi muita coisa pesada mesmo.

Minha mãe e as amigas achavam que eu estava sempre dormindo, mas eu via. Eu escutava. E, diante de tudo aquilo, como eu conseguiria me concentrar nos estudos? Como se não bastasse, minha situação emocional piorava a cada dia.
Sem perceber, fui me fechando cada vez mais e comecei a sentir revolta também contra minha mãe. Já não era apenas meu pai que ocupava esse lugar dentro de mim. Eu estava magoado com os dois.
Mesmo assim, nunca dizia nada. Sofria sozinho, em silêncio. Não contava para ninguém. Muitas vezes tive vontade de conversar com meus padrinhos, tia Neuza e tio Toninho, mas tinha medo da reação deles. Também não tinha nenhum amigo em quem confiasse o suficiente para desabafar.
Apesar de ter apenas dez anos naquela época, eu sentia muita falta dos amigos do bairro onde morávamos antes da separação dos meus pais.
Por outro lado, minha amizade com Júlio e seu irmão mais novo, Wilian, ficava cada vez mais forte. Ainda assim, eu estava longe de confiar neles para revelar tudo o que sentia.
Em um final de semana, conheci dona Maria, mãe de Júlio e Wilian. Era uma mulher de poucas palavras, mas muito carinhosa com os filhos. Assim como minha mãe, trabalhava bastante.
Dona Maria sempre me tratou bem, mas havia algo em seu olhar que me causava estranheza. Não sei dizer se era reprovação, curiosidade ou até mesmo pena. De qualquer forma, ela nunca demonstrou ser contra minha amizade com seus filhos.
Num sábado qualquer, eu estava na casa dela assistindo ao desenho Transformers com Júlio e Wilian, um verdadeiro fenômeno entre as crianças em 1984. Quando o desenho terminou, percebi que já estava quase na hora do almoço e resolvi voltar para casa.
Nossa casa ficava a cerca de duzentos metros dali. Caminhei pelo corredor externo da residência em direção ao pequeno portão de saída. Quando me aproximei, ouvi a voz de dona Maria conversando com algumas vizinhas.

Elas estavam falando da minha mãe.
Sem que percebessem minha presença, parei e comecei a ouvir.
— Esse menino, o Michel, é filho daquela loira que trabalha na farmácia do Sérgio — disse uma das mulheres.
— O nome dela é Sandra. É ela que mora naquela casa ali, ó! — respondeu outra.
Então dona Maria perguntou:
— Aquela casa ali? Aquela casa que parece um puteiro? Coitadinho do Michel…
Outra vizinha completou:
— Sim, aquela casa é um verdadeiro puteiro. É um entra e sai de homens. A mãe dele já teve uns três namorados, e aquela morena que mora com eles, a tal Cristina, não passa de uma piranha.
Dona Maria então disse:
— Mas ali são todas piranhas. Principalmente a mãe do Michel. Essa Sandra é uma vagabunda de mão cheia. Imagine só o ambiente em que esse menino e a irmã estão crescendo.
Fiquei em choque.
Paralisado.
Ouvir aquelas mulheres chamando minha mãe de vagabunda e piranha foi como levar um soco no estômago. Meus olhos se encheram de lágrimas. Senti a raiva e a tristeza subirem ao mesmo tempo, mas consegui me controlar.
Fiz um pequeno barulho para que percebessem que eu estava ali.
Imediatamente, todas se calaram.
Olhavam para mim com uma mistura estranha de pena, constrangimento e desprezo.
Passei por elas, cumprimentei cada uma e disse para dona Maria:
— Tchau, dona Maria. Obrigado pelo lanche, tá? Fique com Deus.
Ela me olhou com ternura e respondeu:
— De nada, meu filho. Venha quando quiser. E mande um beijo para sua mãe.
Segui para casa.

Minha mãe e Cristina estavam na cozinha, bebendo cerveja e falando alto. Entrei sem dizer nada e fui direto para o banheiro.
Assim que fechei a porta, comecei a chorar compulsivamente. Enterrei o rosto na toalha de banho para abafar os soluços e não ser ouvido.
Foi a primeira vez que senti aquela dor forte no estômago. Hoje acredito que foi ali que nasceu a minha gastrite nervosa.
Depois de alguns minutos, lavei o rosto e fui para o quarto.
Patrícia estava estudando, como quase sempre acontecia.
Olhei para ela e me perguntei:
— Como ela consegue?
Ela levantou os olhos dos cadernos e perguntou:
— Nossa, Michel! Por que você está com o rosto inchado? Você estava chorando?
Minha mãe ouviu a pergunta e entrou imediatamente no quarto.
— Mi! O que foi, filho? Por que você estava chorando? Meu Deus, o que aconteceu?
Fiquei olhando fixamente para ela.
Em poucos segundos, milhares de pensamentos passaram pela minha cabeça.
Então respondi:
— Estou morrendo de dor no estômago…
