
Acordei.
Depois de uma noite mal dormida, cheia de lembranças de um passado ainda muito recente, levantei para encarar a primeira semana na minha nova casa. Era estranho aceitar que, dali em diante, eu dividiria o mesmo teto com Solange — minha maior inimiga. Mas, ao mesmo tempo, eu pensava que teria todo o tempo do mundo para implantar o caos naquela casa.
Fui ao banheiro, lavei o rosto, escovei os dentes e desci para a copa. Quando cheguei, todos já estavam lá: Patrícia, meu pai, Carla e Solange.
Meu pai veio imediatamente com suas provocações em tom de brincadeira:
— Até que enfim ele acordou! Aleluia!
Cumprimentei todo mundo. Solange respondeu com um “bom dia” que soou mais irônico do que educado.
Quando me sentei à mesa, fiquei paralisado por alguns segundos. Havia uma fartura que eu não via há anos: pão francês, pão de forma, margarina, geleia, patê, bolo, chocolate quente, café, leite e cappuccino.

Sem perceber, meus olhos começaram a se encher de lágrimas.
Fazia anos que eu não tomava um café da manhã de verdade. Ultimamente, meu café era só um pão seco e um copo pequeno de leite. Nada mais.
Naquele momento, pensei na minha mãe.
“Como será que está sendo o café da manhã dela hoje? O que será que ela está comendo?”
Entre todas as pessoas na mesa, apenas Solange percebeu que algo estava errado. Meu pai conversava animadamente com Patrícia e Carla, sem notar nada.
Ela disse:
— Fique à vontade, Michel. Sirva-se do que quiser. Não precisa ter vergonha. Agora essa casa também é sua… e esse é só o nosso primeiro café da manhã. Ainda virão muitos.
Por alguns segundos, minha revolta diminuiu. Eu aproveitei aquele café com tudo que tinha direito. Ainda assim, não consegui esquecer que, na minha cabeça, era justamente por causa dela que eu, minha irmã e minha mãe passamos quatro anos tomando um café da manhã miserável.
Foi nesse momento que Joelma chegou.
Joelma era a empregada da casa — ou melhor, da família Fonseca — havia muitos anos. Já tinha trabalhado na casa do senhor Marcos, pai de Solange, e também com outros parentes da família. Há mais de um ano trabalhava diretamente para Solange e meu pai. Chegava na segunda-feira de manhã e só ia embora na sexta à noite. Às vezes ficava até o fim de semana.
Na prática, Joelma quase morava ali. Quando saía, ia para a casa de uma irmã na zona leste de São Paulo.
Ela tinha cerca de 30 anos, era baixinha, devia ter uns 1,55m, morena clara, cabelos castanhos curtos e olhos castanhos. Trabalhadora desde sempre, honesta, perfeccionista, divertida e extremamente falante.

Mas havia algo peculiar nela: Joelma gostava demais de atenção masculina e vivia se envolvendo em romances passageiros. Meu pai e Solange sabiam disso, desde que não causasse problemas dentro de casa.
Quinze minutos depois de ser apresentada a mim e à Patrícia, parecia que já éramos amigos havia anos.
E já aviso: Joelma ainda renderia histórias absurdas, uma mais inacreditável que a outra.
Os dias foram passando. Ainda estávamos de férias, faltavam cerca de vinte dias para as aulas começarem. Meu pai e Solange correram atrás de escola para mim e minha irmã e conseguiram vaga em um colégio municipal muito conceituado da região. Era tão disputado que muitos pais tiravam os filhos de escolas particulares para estudar lá, por causa da disciplina e da qualidade de ensino.
Carla continuava em um colégio particular, pago por Alberto, o pai dela.
Meu pai estava preocupado comigo. Eu já tinha repetido a quarta série, tinha terminado a quinta e iria para a sexta. Ele não aceitava aquilo, principalmente porque sempre dizia que eu era inteligente.
E foi exatamente aí que nasceu a primeira parte da minha vingança.
Eu decidi que iria reprovar a sexta série de propósito. Ia repetir quantas vezes fosse necessário, só para fazê-lo sofrer. Eu era o orgulho dele, não era? Então agora eu seria a maior vergonha.
Eu não ligava nem para mim mesmo. Meu único foco era ferir meu pai e Solange.
Durante aquela semana comecei a notar coisas estranhas na casa. Percebi trocas de olhares discretas entre meu pai e Joelma. Pequenos gestos, sinais silenciosos.
Pensei comigo:
“Tem alguma coisa aí… Mas talvez seja normal. Se meu pai traiu minha mãe com a Solange, por que não faria de novo?”

Apesar disso, ele parecia completamente apaixonado por Solange. Talvez fosse apenas aquela mentalidade machista dele: homem pode tudo, mulher não.
Resolvi observar em silêncio.
No fim de semana seguinte conheci o senhor Marcos, pai de Solange, e também os irmãos dela: Vagner, o mais velho, e Renata, a caçula.

Gostei do senhor Marcos imediatamente. Alto, postura séria, olhar firme, mas com algo acolhedor que me transmitiu confiança. Vagner era do tipo brincalhão em excesso — daqueles que passam do limite e ficam irritantes. Já Renata era tranquila, parecida com Carla e com minha irmã.
Mas algo voltou a chamar minha atenção.
Também percebi olhares estranhos entre Joelma e o senhor Marcos.
Pensei:
“O que está acontecendo nessa família? Será que sou eu vendo coisa onde não existe?”

De qualquer forma, se eu descobrisse algo comprometedor, sabia que poderia usar aquilo a meu favor.
Faltava uma semana para as aulas começarem. Patrícia estava animada para fazer amigos novos. Já conhecia praticamente todas as meninas da rua. Eu, ao contrário, continuava fechado. Não fazia questão de conhecer ninguém.
Mesmo querendo usar a escola como parte da minha vingança, eu também estava cansado daquela vida de mudanças constantes — escola nova, bairro novo, recomeços infinitos.
Aliás, até agora não falei o nome da minha mãe.
Minha mãe se chama Sandra.

Loira, olhos verdes, cerca de 1,60m, bonita. Estudou até o ginásio porque se casou cedo com meu pai. Era muito inteligente, tinha uma letra impecável e escrevia sem erros — algo que sempre impressionava meu pai.
Durante o casamento, foi dona de casa por causa do machismo dele. Depois da separação, precisou trabalhar e conseguiu emprego em um posto de gasolina , trabalhava em um a cabine que tirava fotos 3 x4 ( como mencionei antes) no bairro da Vila Madalena . Ficou pouco tempo lá , logo depois , conseguiu um emprego de caixa em uma farmácia no mesmo bairro que morávamos , ela ia a pé para o trabalho , e rapidamente ganhou a confiança do dono, Sérgio, por ser extremamente responsável.
O salário não era grande coisa, mas somado ao dinheiro das costuras da minha avó, conseguíamos sobreviver.
Minha mãe trabalhava de segunda a sábado. Nas sextas-feiras, meu pai aparecia querendo que passássemos o fim de semana com ele. Eu recusava, porque sabia que ele queria nos apresentar oficialmente à nova esposa. Minha irmã acabava ficando comigo.
Curiosamente, ele nunca insistia muito.
Com o tempo, minha mãe começou a mudar. Fez amizade com pessoas da farmácia, principalmente uma colega chamada Dolores. Começou a chegar mais tarde em casa. Minha avó Marisa estranhou. Às vezes minha mãe voltava com cheiro de bebida, cigarro, falando diferente.
Depois passou a sair nos fins de semana.
Quando minha avó questionou, ela respondeu:
— Não estou fazendo nada demais. Só estou saindo com amigas, conversando, vivendo um pouco. Eu tenho esse direito. Já sofri demais.
Minha avó respondeu:
— Eu sei que você sofreu, Sandra. Todos nós sofremos. Mas você tem filhos. Eles estão percebendo essa mudança.
A conversa quase virou discussão, mas minha avó encerrou antes que piorasse.
Minha mãe não nos abandonava, mas aproveitava o fato de saber que minha avó cuidaria da gente.

Até que o destino mudou tudo.
Minha bisavó, Elizabete, sofreu um acidente em Blumenau, aos 91 anos. Quebrou a perna, e minha avó precisou viajar às pressas para ajudar o irmão, Osvaldo. Não havia previsão de volta.
Ficamos apenas eu, Patrícia, minha mãe e nosso cachorro, Pluto.
Com isso, passamos a nos virar mais sozinhos. Eu tinha 10 anos e Patrícia, 9. Íamos de ônibus para a escola, esquentávamos a própria comida e ficávamos sozinhos até minha mãe chegar do trabalho à noite.
Para não nos deixar totalmente sozinhos, minha mãe começou a levar amigos para casa. Às vezes Dolores dormia lá. A casa era pequena: um quarto, cozinha e banheiro. Eu dormia na cama da minha avó, enquanto minha mãe e Patrícia ficavam na cama de casal.
Nos fins de semana apareciam mais pessoas. Música, conversa, bebida, forró.
Eu odiava aquilo.
Principalmente Dolores, que eu achava uma influência ruim.
Foi então que Moisés começou a frequentar nossa casa. Logo percebi que ele e minha mãe estavam se envolvendo. Ele era educado comigo e com minha irmã, sempre levava doces.
Até que um dia percebi claramente que eles queriam ficar sozinhos. Inventaram uma desculpa para eu ir ao mercado. Eu fui, mas quando voltei entrei em silêncio e entendi o que estava acontecendo.
Aquilo me marcou profundamente. Era algo que eu nunca tinha presenciado antes, nem entre meus próprios pais. Saí sem fazer barulho e fiquei sentado na rua, tentando entender o que estava sentindo.
Nos dias seguintes não consegui tirar aquela cena da cabeça. Sentia confusão, raiva e culpa por sentir aquilo.
Moisés continuou aparecendo por um tempo… até desaparecer. Depois descobri que ele era casado.
Minha mãe reclamou do sumiço dele para Dolores, mesmo sabendo da situação.
Algum tempo depois surgiu outro homem: Jaílson, amigo dela e de Dolores. Ele passou a dormir em casa nos fins de semana. E, mais uma vez, eu percebia movimentações silenciosas durante a madrugada — sinais de que minha mãe tentava reconstruir a própria vida do jeito dela.
E foi ali que muita coisa começou a mudar dentro de mim.

E foi assim que eu comecei a perder mais uma parte da minha infância.

Clique aqui para ler – A Esposa Do Meu Pai – Capítulo 1
Ou clique aqui para ler – A Esposa Do Meu Pai – Capítulo 3
Quer deixar um comentário? Clique aqui e comente no Patreon.