A Esposa Do Meu Pai. Capítulo 1- A Chegada ,O Lugar Onde Tudo Começou.

“Eu não devia estar aqui.”

Foi a primeira coisa que pensei no instante em que coloquei os pés naquela casa.

Era 1988. Eu e Patrícia, minha irmã, chegávamos à casa do meu pai, Roberto. Um sobrado grande, na zona sul de São Paulo, perto do autódromo de Interlagos. Daqueles que impõem respeito logo na entrada. Quatro quartos, quatro banheiros, sala ampla, sala de jantar espaçosa — tudo grande demais para quem carregava tanta coisa mal resolvida por dentro.

Assim que entramos, meu pai veio ao nosso encontro. Estava eufórico. Sorriu, chorou, nos abraçou com força, primeiro a mim, depois a Patrícia. Parecia genuinamente emocionado, como se aquele momento apagasse tudo o que tinha ficado para trás.

Logo atrás dele, ela se aproximava.

Solange.

A mulher que quase destruiu a vida da minha mãe.

A mulher que bagunçou a minha.

A mulher que, naquele instante, eu já sabia que faria sofrer — cedo ou tarde.

Solange tinha os cabelos castanhos escuros, levemente ondulados, na altura dos ombros. Pele branca, olhos verdes, corpo chamativo, busto farto, cerca de um metro e sessenta e nove de altura. O olhar era sério, mas havia algo ensaiadamente carinhoso ali, como quem sabe exatamente o papel que precisa desempenhar.

Ela me abraçou, abraçou minha irmã e disse, com a voz firme:

— Sejam bem-vindos à nossa casa.

Meu pai completou, sorrindo, orgulhoso:

— Vocês não imaginam o quanto estou feliz em ter vocês dois aqui perto de mim e da Solange.

Logo atrás dela surgiu Carla, sua filha do primeiro casamento. Tinha quatorze anos, pele jambo, herança do pai, Gilberto, que era negro. Olhos verdes, cabelos longos e cacheados. Uma menina bonita, educada, que nos cumprimentou com simpatia e boa vontade.

Enquanto todos sorriam, eu lancei um olhar duro para Solange. Um olhar sério, agressivo, sem disfarce. Ela percebeu. Seu semblante mudou por um segundo, ficou tenso, assustado. Meu pai não notou nada.

Patrícia, como sempre, foi cordial com todos.

Entramos na casa.

E, naquele momento, eu tive certeza de uma coisa:

nada ali seria simples.

Ficamos conversando um pouco na sala. Conversa de ocasião, frases soltas, aquele clima forçado de quem tenta parecer família sem ainda ser. Depois, meu pai se levantou animado e disse que iria nos mostrar os quartos.

Havia um quarto para mim, um para Patrícia e outro para Carla. Tudo já parecia organizado, pensado com antecedência, como se aquela casa estivesse esperando por nós há tempos.

Solange fazia questão de ser o mais agradável possível. Sorria, perguntava se estávamos confortáveis, se gostávamos do espaço, se precisávamos de alguma coisa. Patrícia respondia a tudo com simpatia, sorrindo como sempre. Eu, não. Mantive a indiferença bem visível. Não fui mal-educado, mas também não fiz esforço algum para agradar.

Era domingo. Depois, almoçamos juntos. À mesa, eu mal tocava na comida. Passava mais tempo encarando Solange do que qualquer outra coisa. O olhar carregado de raiva, de julgamento, de coisas que eu ainda não sabia nomear direito.

Ela percebia.

Eu tinha certeza disso.

Depois disso, fui para o meu quarto arrumar minhas coisas. Patrícia fez o mesmo e, em poucas horas, já parecia a melhor amiga de Carla. Ela sempre teve essa facilidade de se adaptar, de se encaixar, como se nada a abalasse.

Eu fiquei parado por alguns minutos, observando as paredes vazias, imaginando onde iria pendurar meus pôsteres do Iron Maiden, Metallica, Kiss e Sepultura. Aqueles nomes diziam mais sobre mim do que qualquer conversa naquela casa.

Passei a tarde inteira organizando tudo, ajeitando cada detalhe, deixando o quarto com a minha cara. Tinha um rádio toca-fitas K7, que virou meu refúgio. Fiquei ouvindo minhas músicas sem parar, o volume moderado, mas a cabeça barulhenta demais para descansar.

Em algum momento, acabei cochilando.

Fui acordado pelo meu pai. Quando abri os olhos, já eram oito horas da noite.

Meu pai olhou para as paredes cobertas de pôsteres, balançou a cabeça em desaprovação e me chamou para jantar.

Sentamos à mesa para jantar pouco depois.

A casa era grande, bonita, organizada demais. Tudo ali parecia ensaiado, como se cada objeto estivesse no lugar para convencer alguém de que aquela família fazia sentido.

Meu pai puxava assunto o tempo todo. Falava demais. Contava histórias, ria alto, tentava preencher os silêncios que ninguém tinha coragem de encarar. Patrícia acompanhava, educada, sorrindo, perguntando de tudo. Sempre foi assim: observadora, controlada, madura demais pra idade.

Eu quase não falava.

Respondia quando perguntado. Curto. Seco.

Solange sentava à minha frente.

Às vezes cruzava as pernas. Às vezes ajeitava os óculos. Às vezes sorria daquele jeito contido, como quem tenta parecer confortável num terreno que ainda não domina. Eu sentia quando ela me observava. E fazia questão de sustentar o olhar quando nossos olhos se cruzavam.

Não era desafio.

Era aviso.

Carla falava pouco. Educada, discreta, parecia ainda tentando entender onde se encaixava naquela nova configuração. Patrícia, em poucas horas, já tinha se aproximado dela. Eu observava tudo em silêncio.

Enquanto meu pai falava sobre trabalho, rotina e planos, eu só conseguia pensar em uma coisa:

aquilo ali não era um recomeço.

Era o começo de algo que ainda ia custar caro pra todo mundo.

Quando o jantar terminou, subi para o quarto com a sensação estranha de estar entrando numa casa que não era minha — e, ao mesmo tempo, numa história da qual eu não conseguiria sair tão cedo.

Fechei a porta.

E ali, sozinho, tive certeza de uma coisa:

nada naquela casa estava resolvido. Nem de longe. Apaguei a luz , e fiquei a noite inteira pensando na minha mãe … Fiquei lembrando de como era nossa vida antes de Solange aparecer…

Morávamos num bairro simples, ali perto do Autódromo de Interlagos. A casa não tinha luxo nenhum, mas tinha algo raro: amor. Amor de verdade. Daquele que dá sensação de segurança. Meu pai literalmente construiu aquela casa com as próprias mãos. Tijolo por tijolo. Cada parede tinha o suor dele. Aquela casa era mais do que um lugar — era um território.

Meu pai era carinhoso. Com minha mãe, comigo, com minha irmã. Quando bebia, ficava ainda mais afetuoso. Parecia até que o álcool soltava o que ele guardava por dentro. Fã fanático de Roberto Carlos, os domingos tinham sempre o mesmo roteiro: música alta, caipirinha na mão, ele mexendo em alguma coisa da casa, consertando, inventando, melhorando. Um pai presente. Um pai de família. Um homem que, pra mim, era um exemplo.

Se ele tinha defeitos? Tinha. E eu só enxergava um: era ciumento e machista. Muito. Nunca deixou minha mãe trabalhar fora. Na cabeça dele, mulher tinha que ficar em casa cuidando dos filhos. Eles namoravam desde os 16 anos. Casaram cedo. Minha mãe largou os estudos. Ele continuou. Cresceu profissionalmente. Ela ficou parada no tempo, presa à casa, aos filhos, à rotina.

Eu era um ótimo aluno. Desde o prezinho. Desenhava bem demais pra minha idade. Com sete anos, já criava minhas próprias histórias em quadrinhos. Tinha jeito pra música. Criava meus próprios brinquedos com papel, madeira, qualquer coisa que achasse. Meus pais diziam que eu seria um gênio. Ou um grande desenhista. Ou engenheiro. Ou qualquer coisa grande. Minha irmã também era estudiosa. A vida parecia ter um rumo.

Mas, aos poucos, meu pai foi mudando.

Primeiro, ele começou a chegar em casa nervoso. Depois, quando bebia, não ficava mais carinhoso — ficava alterado. A mudança foi lenta, mas cruel. Até que ele cruzou uma linha que não tem volta: começou a agredir minha mãe. Um dia, chegou ao ponto de apontar uma arma pra ela.

No lugar dele apareceu outra coisa. Um demônio. E eu não entendia por quê. Não entendia como aquele homem tinha virado aquilo. Comecei a ter medo dele. Medo real. Às vezes ele voltava ao normal, parecia arrependido, parecia o pai de antes. Mas logo o mau humor voltava. A tensão voltava. O inferno voltava.

Foi quando descobrimos que ele tinha outra mulher. Solange. Ele trabalhava no CPD de uma faculdade famosa de São Paulo. Foi lá que a conheceu. Meus pais ficaram casados por 10 anos. Os últimos dois foram um campo de batalha. Um inferno diário. Mesmo assim, eu continuava estudando. Achava que era só uma fase. Que ia passar.

Não passou.

Em 1984, minha vida virou do avesso.

Meus pais se separaram. Meu pai vendeu a casa — aquela casa que ele construiu com as próprias mãos. Deu metade do valor pra minha mãe. Eu, Patrícia e minha mãe fomos morar num bairro periférico da zona sul de São Paulo. Longe de tudo o que eu conhecia. Longe da minha vida.

Minha avó materna, Marisa, foi morar com a gente pra ajudar minha mãe a cuidar de nós. Minha mãe não tinha experiência com nada. Nunca tinha trabalhado fora. O único emprego que conseguiu foi na Vila Madalena, dentro de um posto de gasolina, numa cabine que tirava foto 3×4. Era isso. Aquela mulher que tinha dedicado a vida inteira à família agora tirava foto de desconhecidos pra sobreviver.

Eu e minha irmã aprendemos a pegar ônibus sozinhos, ainda crianças, porque a escola era boa e minha mãe fazia questão que a gente continuasse lá. O salário dela pagava o aluguel. A aposentadoria da minha avó ajudava no resto. O dinheiro da venda da casa acabou em menos de um ano. O valor era ridiculamente baixo. Anos depois eu descobriria o porquê.

Mas ali… ali foi quando eu quebrei.

A pior noite da minha vida até aquele momento foi a primeira noite naquela casa estranha. Longe do meu pai. Longe da rotina. Longe de tudo que me dava chão. Na hora de dormir, tive uma crise de choro desesperada. Eu pensava sem parar:

Que casa é essa?

Por que meu pai não está aqui?

Por que isso está acontecendo comigo?

Eu tinha só 9 ou 10 anos. Minha mãe não me contava tudo. Tentava me proteger. Mas o silêncio também machuca.

Depois disso, eu não consegui mais estudar. Não conseguia me concentrar. Não conseguia desenhar. Não conseguia criar. Não conseguia ser eu. Minha vida virou sofrimento puro, uma saudade constante da vida que eu tinha perdido.

Minha irmã, Patrícia, parecia não ter sido afetada. Estudava normalmente. Sorria. Vivia. Eu olhava pra ela e me perguntava: ela é fria? Ou forte? Sou eu que sou fraco? Nunca soube responder.

Foi nessa época que minha mãe começou a beber cerveja. Começou a fazer amizades estranhas. Pessoas que bebiam demais. Gente estranha. Pelo menos, estranha pra mim.

E ali, sem eu perceber, a infância acabou.

“Essa história não termina aqui.”

“Essa foi só a primeira porta que se fechou.


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