Capítulo 5 – ” Isso É Só Frescura ” – A Esposa Do Meu Pai

O ano era 1994.

— Michel, aconteceu uma coisa que eu não esperava…

— O que foi? — respondi, preocupado.

— Eu estou grávida…

Naquele instante, congelei. Fiquei em estado de choque. Meus 20 anos passaram pela minha cabeça em questão de segundos.

“E agora? O que eu vou fazer?”, pensei.

Tudo bem que eu queria mudar algumas coisas, talvez até causar algum impacto na vida deles, mas aquilo era demais. Como eu deixei isso acontecer?

De volta a 1984.

Foi nessa época que começaram minhas dores de estômago.

Qualquer alteração no meu humor ou nas minhas emoções fazia meu estômago doer de uma maneira quase insuportável. A cada situação difícil que eu presenciava em casa, a cada momento de tristeza, raiva ou revolta, a dor aparecia.

Além disso, meus pensamentos negativos e minhas preocupações, que já atrapalhavam minha concentração nas aulas, agora, junto com as dores, tornavam quase impossível manter o foco.

Eu não mencionei isso no começo da história ,mas, entre os meus 2 e 7 anos de idade, sofri bastante com uma bronquite crônica e também com anemia. Houve épocas em que eu passava mais tempo no hospital do que em casa.

Foi com 10 anos de idade que eu comecei a sofrer com fortes dores de estômago…

Ainda bem que meu pai trabalhava no CPD de uma faculdade que possuía hospital, atendimento odontológico e outros serviços médicos. Como filho de funcionário, eu tinha prioridade no atendimento, e isso facilitava muito o meu tratamento.

Mesmo assim, minha bronquite nunca desaparecia completamente. Eu passava alguns dias melhor, mas depois ela voltava ainda mais forte.

Apesar disso, consegui concluir o prézinho, a primeira e a segunda série sem grandes problemas.

E agora eu sei que você, que está lendo esta história, pode se perguntar se tudo isso realmente aconteceu. Eu entendo, pois eu mesmo sou cético. Na verdade, com o passar do tempo, tornei-me uma pessoa bastante cética.

Mas existe algo que marcou profundamente a minha vida: minha bronquite simplesmente melhorou e nunca mais voltou depois de um acontecimento que, até hoje, carrego na memória.

Minha avó paterna, Maria, era devota de São Judas Tadeu. Durante quatro domingos consecutivos, ela me levou às missas na igreja de São Judas Tadeu.

Depois disso, ela e minha mãe me levaram a um lugar muito distante, do qual eu não me lembro exatamente onde ficava, para visitar uma senhora benzedeira.

Minha avó Maria era mineira, da cidade de Ouro Preto, e descendente de indígenas. A benzedeira também tinha essa origem.

No começo, fiquei com medo daquela mulher. Ela era muito idosa, usava roupas diferentes das que eu estava acostumado a ver, e a casa tinha um cheiro forte de incenso. Havia um clima de mistério naquele lugar.

Ela rezava enquanto preparava uma mistura com várias ervas e líquidos dentro de uma panela grande e antiga, que fervia em um fogão a lenha. Eu não fazia ideia do que era aquilo.

Enquanto ela preparava a mistura, minha mãe e minha avó permaneciam ao meu lado. Minha avó segurava um terço nas mãos e rezava em voz baixa, sem parar.

Mas, aos poucos, aquele medo foi dando lugar a uma sensação de paz e tranquilidade.

Depois de algum tempo, a benzedeira retirou da panela aproximadamente cinco litros daquela mistura — que parecia um tipo de caldo ou suco, algo que eu não sabia explicar — e colocou tudo em quatro garrafas para esfriar.

Em seguida, ela veio até mim segurando algo que parecia estar em brasa e passou aquilo ao meu redor enquanto fazia suas orações. Era uma espécie de ritual, enquanto minha avó continuava rezando com o terço nas mãos.

Quando tudo terminou, as garrafas já estavam mais frias. Minha avó terminou suas orações, e a benzedeira explicou:

— Um copo pela manhã, em jejum, e outro antes de dormir. Essa garrafada vai curar a doença dele.

Minha avó pagou pelo tratamento. Antes de irmos embora, a benzedeira se aproximou de mim, disse algumas palavras que eu não consegui entender, segurou meu rosto com as duas mãos, olhou para mim com um olhar cheio de carinho e me deu um beijo na testa.

Chegamos em casa por volta das 19 horas.

Minha avó Maria disse para minha avó Marisa:

— Essa é a garrafada que vai curar a bronquite do Michel. Ele vai tomar um copo de manhã, em jejum, e outro à noite, antes de dormir.

O medo se transformou em paz…

Quando meu pai chegou em casa naquela noite, minha mãe contou todos os detalhes do dia, incluindo o ritual — ou seja lá como eu deveria chamar aquilo.

Meu pai respondeu:

— Eu acho que só mesmo essa garrafada poderá curar meu filho, porque eu não aguento mais vê-lo sofrendo desse jeito.

No fim do tratamento, quando faltava apenas uma garrafa para terminar aquela mistura, eu já estava muito melhor.

Talvez eu pudesse chamar aquilo de tratamento espiritual. Talvez fosse apenas uma forma de medicina alternativa. Até hoje, não tenho uma explicação definitiva.

Mas o fato é que, depois daquela última garrafa, nunca mais voltei ao hospital por causa da bronquite.

Voltei por outros motivos ao longo da vida, mas a bronquite nunca mais apareceu.

A famosa “garrafada” havia me curado.

Porém, agora estávamos em 1984.

Meus pais já estavam separados. Eu havia mudado de bairro, era difícil encontrar minha avó Maria, e fiquei sabendo que a benzedeira havia falecido.

Minha mãe trabalhava fora. Eu via meu pai apenas nos finais de semana, por cerca de uma hora. Mesmo sentindo aquelas dores constantes, eu não reclamava.

Até que um dia minha mãe percebeu que havia algo errado. Ela ficou preocupada e conseguiu dois dias de folga para me levar ao médico.

Fiz exames, mas nada apareceu.

Minha mãe ficou preocupada e conseguiu dois dias de folga para me levar ao médico.

Depois, meu pai decidiu me levar a um hospital. Eu chorava dizendo que só iria se fosse sozinho com ele, porque não queria encontrar a namorada dele. Ele respeitou meu pedido e me levou a dois hospitais diferentes.

Novamente, os exames não mostraram nada.

Depois, meu pai decidiu me levar a um hospital.

Certo dia, na volta de mais uma consulta, meu pai e eu paramos na farmácia onde minha mãe trabalhava. Assim que nos viu, ela veio aflita querendo saber o resultado dos exames.

Meu pai explicou tudo o que o médico havia dito.

Minha mãe ficou confusa e triste. Ela olhava para mim tentando entender o que estava acontecendo.

Foi então que ouvi uma frase do meu pai. Uma frase que eu ainda escutaria muitas outras vezes durante a minha vida:

— Ele não tem nada. Acho que é frescura dele.

— Ele não tem nada. Acho que é frescura dele.

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