
19 de janeiro de 2002
— Michel? Por favor, me abraça!
— O que aconteceu? — perguntei.
— Depois eu te falo. Agora, por favor, me abraça forte.
Abracei-a. Ela começou a chorar. Estava com um roupão pós-banho, mas era um roupão fino.
Abracei-a forte. Senti seus seios volumosos contra o meu corpo. Fiquei excitado na hora, pois senti aquele corpo colado com força ao meu. Meu corpo reagiu imediatamente à proximidade dela.
Parecia que eu ia explodir, e eu acho que ela também percebeu, pois eu estava muito exitado. Mas ela não falou nada.
Chorou até se acalmar.
Depois eu disse:
— Está mais calma?
Ela disse:
— Sim, obrigada, Michel. Eu precisava muito de um abraço assim. Eu te adoro…
Eu perguntei:
— Ok, mas o que aconteceu agora? Brigaram novamente? Ele te ofendeu de novo?
Ela respondeu:
— Nada, nada… Depois eu explico. Só precisava do seu abraço. Vamos subir, pois já está tarde.
Subimos.
Ela continuava abalada, mas parecia ter conseguido recuperar um pouco da calma depois daquele abraço. Eu ainda estava tentando entender o que tinha acontecido.
Naquele momento, porém, percebi que não era apenas uma questão de saber o motivo do choro. Havia alguma coisa naquela noite que parecia diferente.
E eu tinha a sensação de que, cedo ou tarde, ela acabaria me contando.

Maio de 1984
Meu pai achou que minhas dores de estômago eram frescura.
Será que ele estava certo?
Pois fomos aos médicos, fiz exames e não deu nada. Sei lá. O que sei é que, cada vez que eu ficava triste, revoltado ou nervoso, a dor voltava.
O jeito foi conviver com a dor sem reclamar.
Passei as férias na casa da minha madrinha Neuza. Quando ela e meu tio perguntavam para mim como estavam as coisas, o que eu fazia e como era a nossa rotina em São Paulo, eu sentia vergonha.
Então eu não dizia nada.
Até inventava algumas histórias, só para que meus padrinhos não desconfiassem.
Porém, ao mesmo tempo, eu tinha muita vontade de falar, desabafar e contar tudo para eles, pois eu estava sofrendo e não tinha ninguém para me ouvir.
Mas, na hora, eu pensava, pensava e não dizia nada.
Meu padrinho Antônio às vezes desconfiava de alguma coisa, devido ao meu comportamento retraído. E eu, para ele não desconfiar mais, até inventava histórias, dizendo que tinha muitos amigos na rua, que nos finais de semana eles ficavam em casa e eu na casa deles, enquanto minha mãe descansava ou ia para a igreja com algumas amigas.
Enfim, comecei a mentir logo cedo.
Mas, pensando bem, minha mãe não era nenhuma bandida.
Ela era extremamente honesta e trabalhadeira.
O que me incomodava era aquele entra e sai de amigas estranhas e a troca de namorados dela.
Ela havia sofrido muito.
Foi enganada.
Meu pai não deixava ela estudar e trabalhar, e o que ela ganhou com isso?
Ganhou um pé na bunda, literalmente.
Foi trocada por outra mulher como alguém que troca de roupa e ainda teve que abandonar a casa.
Sendo assim, ela tinha todo o direito de recomeçar a vida, ser feliz e compensar os dez anos perdidos no casamento.
Mas foram dez anos perdidos mesmo?
Acho que não.
Teve os momentos felizes, com certeza.
Eu nasci, minha irmã nasceu. Então, digamos que não foram dez anos de perda de tempo.
Eu acho.
Por muitas vezes, geralmente às sextas-feiras e aos sábados, as amigas da minha mãe vinham para casa, como sempre.
Eu, deitado na cama, coberto e assistindo à TV, assim como minha irmã.
Minha irmã pegava no sono rápido, e eu fingia estar dormindo, só para ouvir as conversas da minha mãe com as amigas.
E, na maioria das vezes, as conversas eram sobre namorados, homens e minha mãe falando do meu pai.
Quando eu estava acordado pela casa, minha mãe e Cristina conversavam sobre assuntos que eu ainda não compreendia direito. Elas falavam em códigos quando percebiam que eu estava por perto.
Mas, quando eu estava dormindo — ou fingindo que estava — e minha mãe também acreditava que eu estava dormindo, elas conversavam mais à vontade.
Falavam mais baixo, mas eu, com meus ouvidos aguçados, ouvia tudo.
Às vezes, eu me levantava e ia pisando em ovos, a passos lentos, próximo da cozinha, apenas para ouvir as conversas delas.
Eu ficava curioso com aquilo tudo.
Ao mesmo tempo, havia coisas que me deixavam desconfortável, porque eu percebia que existia uma parte da vida dos adultos que eu ainda não conseguia compreender.
Eu pensava:
— Esse negócio de adulto deve ser realmente muito complicado.
Comecei a reparar mais nas pessoas que frequentavam nossa casa, principalmente Cristina, Dolores e minha ex-tia Sônia.
Sônia era a mais bonita. Cristina era uma bela morena, com um corpo bonito, mas, em matéria de beleza, minha ex-tia era mais bonita.
Naquela idade, eu era muito observador e acabava prestando atenção em coisas que aconteciam ao meu redor sem compreender completamente o significado delas.
Por muitas vezes, eu fingia estar dormindo, com a cabeça para dentro do cobertor, enquanto minha mãe e as amigas conversavam.
Minha mãe perguntava:
— Michel? Michel? Você está dormindo?
Eu não respondia.
Então elas ficavam à vontade para continuar conversando.
E eu continuava ali, quieto, tentando entender aquele mundo de adultos que parecia tão distante do meu.
Quase todos os sábados, elas iam para um bar-lanchonete que ficava ali perto de casa.
Costumavam voltar lá pelas quatro ou cinco horas da manhã. Muitas vezes, com algum amigo.
Eu e minha irmã ficávamos sozinhos em casa.
Minha irmã dormindo, e eu assistindo à TV e, ao mesmo tempo, perdido em meus pensamentos negativos sobre a vida.
Quando eu ouvia o barulho e as vozes no portão, fingia estar dormindo.
Era uma rotina estranha para uma criança, mas, naquela época, eu achava que aquilo fazia parte da vida.
Até que, em um dia qualquer da semana, aconteceu uma coisa que jamais imaginei que aconteceria.
Eu já estava acostumado com Cristina em casa.
Ela fazia parte da nossa rotina.
Depois de algum tempo, porém, algumas situações começaram a me deixar confuso, e hoje consigo entender que eu simplesmente não tinha maturidade para compreender determinadas coisas que aconteciam ao meu redor.
Todas as noites eram assim:
Minha irmã dormia sozinha na cama de solteiro, e eu dormia com minha mãe e Cristina na cama de casal.
Você deve estar se perguntando:
— Por que Michel não dormia sozinho na cama de solteiro e Patrícia com Sandra e Cristina na cama de casal? Ou Cristina na cama de solteiro e Michel, Patrícia e Sandra na cama de casal?
Pois é.
Antes de Cristina vir morar conosco, Patrícia bateu os pés e exigiu a cama de solteiro só para ela.
E eu adorei, pois assim eu dormiria abraçado com minha mãe todos os dias.
Para mim, foi ótimo.
Aliás, desde pequena, Patrícia sempre me pareceu fria demais.
Não sei se era impressão minha.
Enfim, naquela noite eu estava fingindo estar dormindo, no canto da parede, com a cara virada e o nariz colado na parede.
Cristina veio deitar para assistir à novela “Partido Alto”, novela da Globo na época.
Logo depois que Sônia foi embora, minha mãe entrou, tomou banho, apagou a luz e veio deitar.
Como ela viu que eu estava dormindo — entre aspas — com a cara colada na parede, e Cristina quase dormindo, ela desligou a TV e deitou.
Cristina ficou no meio, minha mãe no canto e eu no canto da parede.
Esperei alguns minutos e, devagar, me virei.
O que aconteceu naquele momento é uma daquelas lembranças que permaneceram na minha cabeça durante muitos anos.
Hoje, como adulto, consigo enxergar aquela situação de uma maneira completamente diferente.
Naquele momento, eu não tinha a compreensão, a consciência ou a maturidade que um adulto teria diante daquela situação.
Eu tinha apenas dez anos.
Minha mãe percebeu que havia alguma coisa errada e falou com autoridade:
— Michel! Pare com essas gracinhas e durma, senão o chinelo vai cantar!
Eu, tomado pela surpresa e pelo susto, me virei e tentei dormir.
No dia seguinte, minha mãe veio me dar uma bronca.
Eu tentei justificar o que havia acontecido, mas ela não acreditou em mim.
Depois, como de costume, fiquei no quarto, fingindo dormir, e escutei minha mãe e Cristina conversando.
Eu não entendia completamente o que elas estavam dizendo.
Só percebia que o assunto da noite anterior ainda estava sendo comentado.
Hoje, olhando para aquela lembrança, consigo compreender que minha mãe estava tentando lidar com uma situação que, para mim, naquela idade, era impossível de interpretar corretamente.
Em outro dia, um domingo, Cristina estava deitada na cama, assistindo ao programa “Qual é a Música?”, no canal 4/TVS, que depois seria o SBT.
Eu fiquei ali por perto, assistindo ao programa.
Minha mãe entrou no quarto, percebeu a situação e chamou a atenção de Cristina.
Cristina calmamente se ajeitou.
Minha mãe olhou para mim e mandou que eu fosse para fora brincar com Pluto, nosso cachorro vira-lata, que já estava com seis anos de idade.
Eu e minha irmã ganhamos o Pluto de meu pai em 1978.
Fiquei um pouco com o Pluto e entrei para a cozinha.
Foi quando ouvi minha mãe e Cristina discutindo baixinho.
Pela primeira vez, as duas se desentenderam.
Mas logo a situação foi superada.
Em outro domingo, minha mãe estava com um amigo na cozinha, tomando cerveja e conversando normalmente.
Cristina estava tomando banho para saírem.
Passei em frente à porta do banheiro e disse, brincando, só para zoar mesmo:
— Cristina? Vai logo, estou quase fazendo xixi nas calças. Se você não abrir a porta, eu abro à força.
E ela disse:
— Pode entrar, a porta está aberta.
Eu, na brincadeira, sem acreditar que ela realmente havia deixado a porta aberta, empurrei a porta com o pé.
A porta se abriu e a situação me pegou completamente de surpresa.
Fiquei sem reação por alguns segundos e saí rapidamente dali, indo para o quarto.
Cristina fechou a porta.
Logo saiu do banheiro já trocada e, assim, ela, minha mãe e o amigo delas saíram. Não sei para onde.
Elas voltaram umas sete da noite.
Percebi que estavam com os rostos vermelhos e pareciam ter chorado.
Cristina e minha mãe não soltaram uma palavra uma para a outra durante o resto da noite.
No dia seguinte, fui para a escola e voltei no mesmo horário.
Minha mãe chegou do trabalho no horário de sempre.
Cristina estava demorando para chegar, então perguntei:
— Mãe? Por que a Cristina está demorando para chegar?
Minha mãe respondeu:
— Cristina não mora mais aqui. Nós brigamos. Ela faltou com o respeito com você e, principalmente, comigo. Não quero esse tipo de gente morando conosco.
Olhei espantado para Patrícia.
Patrícia perguntou:
— O que ela fez, mãe? O que é faltar com o respeito?
Minha mãe olhou para ela com os olhos marejados de lágrimas e disse:
— Um dia eu explico, minha filha.
E eu fiquei ali pensando:
— Caramba… que triste… Ela foi embora…
Naquele momento, eu ainda não entendia o que realmente havia acontecido.
Só sabia que Cristina não morava mais conosco.
Mais uma pessoa havia entrado na nossa rotina e, de repente, desaparecido dela.
E eu não fazia ideia de que, muitos anos depois, algumas daquelas lembranças ainda estariam vivas na minha memória.
