A Esposa Do Meu Pai – Capítulo 7 – O Último Abraço de Alice

Março de 2002

— Feliz aniversário! Comprei isso aqui para você. Espero que goste.

Ela pegou o presente das minhas mãos e sorriu, curiosa.

— Obrigada, Mi. Não precisava… O que será que tem nessa caixa? Vamos ver…

Ela começou a abrir o pacote devagar, enquanto eu observava sua reação. Quando finalmente viu o que havia dentro, ficou alguns segundos em silêncio.

— Nossa… Mi… Eu não esperava ganhar isso de você…

Era uma lingerie vermelha, acompanhada de uma cinta-liga.

Ela levantou os olhos para mim, visivelmente sem saber o que dizer.

— Uma lingerie vermelha… Com liga…

Eu sorri, tentando disfarçar o nervosismo.

— Não precisa ficar vermelha. Passei em frente a uma loja, vi na vitrine e, na mesma hora, imaginei você vestindo isso.

Ela arregalou os olhos.

— Você imaginou eu vestindo isso? Michel…

— Não precisa dizer nada. Apenas aceite. Você é uma mulher maravilhosa. Use hoje à noite e faça ele feliz. Eu só imaginei você vestindo isso. Imaginar é pecado?

Ela deu uma risada sem graça.

— Pode ser… Talvez seja. Kkkkk.

Eu também ri.

— Mas, logicamente, não diga a ele que fui eu que dei isso para você, né?

Ela balançou a cabeça, como se eu tivesse acabado de dizer a coisa mais absurda do mundo.

— Lógico que não, seu bobo. Você acha que eu vou dizer isso para ele? Até parece.

Ela ficou alguns segundos olhando para a lingerie.

Depois, seu sorriso desapareceu.

— Mas… nós precisamos conversar, Mi. Isso não pode acontecer. Esse tipo de presente não é algo que eu costumava ganhar de você. Isso está errado…

Eu a encarei em silêncio por alguns segundos.

— Apenas aceite.

Aproximei-me e dei um beijo perto do canto de sua boca.

— Eu só quero ver você feliz. Eu adoro você. Só isso. Não tem nada de errado em gostar de alguém.

Ela respirou fundo.

— Sim… Quer dizer… não. Não tem nada de errado em gostar de alguém. Mas, nesse caso…

Ela não terminou a frase.

Eu sabia exatamente o que ela queria dizer.

Virei as costas e fui embora.

Enquanto caminhava, uma mistura estranha de alívio e medo tomava conta de mim.

Agora já foi.

Talvez, depois daquele presente, ela finalmente soubesse o que eu sentia.

Eu não precisava mais dizer nada.

Ela entenderia.

Seja o que Deus quiser…

De volta a julho de 1984.

E a vida continuava.

Ou, pelo menos, era o que eu tentava acreditar.

Eu ia cada vez pior nos estudos, enquanto Patrícia parecia seguir exatamente pelo caminho contrário. Quanto mais eu me afastava dos livros, mais ela se destacava na escola.

Minha mãe estava com um namorado novo.

Meu pai continuava aparecendo para nos buscar e levar para passear aos domingos, normalmente de quinze em quinze dias. Eram momentos que eu aguardava com ansiedade, porque, apesar de tudo o que havia acontecido entre meus pais, eu ainda gostava muito de estar com ele.

Meu pai também ajudava financeiramente. Todos os meses dava algum dinheiro para minha mãe, uma quantia que ajudava nas despesas, mas que nunca era suficiente para mudar de verdade a nossa situação.

Enquanto isso, meu estômago continuava doendo.

Cada vez mais.

Eu ia ao médico, fazia exames, tomava remédios e esperava alguma explicação. Mas os resultados nunca mostravam nada que justificasse aquelas dores constantes.

Era como se meu corpo estivesse tentando me dizer alguma coisa que ninguém conseguia entender.

E, como nada é tão ruim que não possa piorar, naquele período chegou o que seria, provavelmente, um dos maiores traumas da minha infância.

Um trauma que me acompanharia por décadas.

Mesmo depois da separação dos meus pais, minha mãe continuava mantendo contato com boa parte da família do meu pai.

Quase todos gostavam muito dela.

Eu também tinha meus padrinhos por parte da família paterna, e muitos parentes diziam abertamente que não concordavam com a maneira como meu pai havia se separado da minha mãe.

Minhas tias paternas eram particularmente duras.

Algumas diziam que jamais aceitariam a nova namorada do meu pai. Chegavam a dizer que seria melhor Roberto nem tentar aparecer na casa delas acompanhado da nova mulher, porque os dois não seriam recebidos de bom grado.

Meu pai era o caçula de vinte irmãos.

Isso mesmo.

Vinte irmãos.

Naquela época, eu nem conseguia compreender o tamanho de uma família daquele tamanho. Hoje, quando penso nisso, percebo que era praticamente uma pequena cidade.

E cada irmão do meu pai tinha, em média, três filhos ou mais.

Imagine só a quantidade de primos.

A família era gigantesca e extremamente diversificada. Havia de tudo: policial, político, advogado, médico, cozinheiro, trabalhador, gente muito pobre, gente com uma vida confortável e também pessoas envolvidas com o mundo do crime.

Tinha preto, branco, pardo, ruivo…

Era uma mistura de histórias, personalidades e destinos completamente diferentes.

E, entre tantos primos e primas, havia uma pessoa que ocupava um lugar especial no meu coração.

Alice.

Para mim, Alice parecia ter saído de um desenho da Disney.

Alice era minha fada madrinha

Era linda.

Tinha a pele muito clara, cabelos negros, lisos e longos, e um rosto delicado, quase como o de uma boneca de porcelana. Seus olhos eram verdes, daqueles que chamavam atenção imediatamente.

Mas não era apenas a aparência dela que me encantava.

Alice tinha um jeito carinhoso comigo que fazia eu me sentir especial.

Ela dizia que eu era o primo favorito dela.

Sempre que aparecia em nossa casa, a primeira coisa que fazia era perguntar:

— Cadê o meu priminho mais lindo da família?

E eu sabia exatamente o que aconteceria depois.

Ela vinha até mim, me pegava no colo, me enchia de beijos e ficava perto de mim durante praticamente todo o tempo em que permanecia em nossa casa.

Eu adorava aquilo.

Meu coração disparava quando ela me abraçava, não por qualquer outra razão, mas pela quantidade de carinho que recebia daquela mulher que, para mim, era uma das pessoas mais especiais da família.

Eu tinha dez anos.

Alice deveria ter uns vinte e dois ou vinte e três.

Ela era casada com Rubens, um sujeito muito bacana, simples e tranquilo. Os dois tinham uma vida financeira razoavelmente estável, mas eram pessoas humildes e muito queridas.

Eles tinham uma filha pequena chamada Angela, que naquela época tinha apenas cinco meses de vida.

Depois que meus pais se separaram, porém, Alice, Rubens e Angela desapareceram da minha rotina.

Durante algum tempo, não tivemos mais notícias deles.

Até que Alice conseguiu entrar em contato com minha mãe por telefone.

As duas conversaram bastante e combinaram que Alice, Rubens e a pequena Angela passariam um final de semana conosco.

Eu fiquei extremamente feliz.

Nossa casa era minúscula, praticamente não havia espaço para acomodar tanta gente, mas isso não importava.

Eles iriam dormir conosco.

Alice e Rubens ficariam no nosso quarto, enquanto eu, minha mãe e Patrícia dormiríamos na cozinha.

Para uma criança de dez anos, aquilo não parecia um problema.

Muito pelo contrário.

Eu só conseguia pensar em uma coisa:

Alice estava voltando.

Quando chegou quinta-feira, eu já estava ansioso demais.

Sabia que eles chegariam no sábado pela manhã.

Tudo estava combinado.

Naquele final de semana, nenhum amigo ou amiga da minha mãe apareceria em casa. Seria apenas a nossa família reunida novamente: Alice, Rubens, Angela, minha mãe, Patrícia e eu.

Na sexta-feira, fui para a escola praticamente contando as horas.

Amanhã eles chegam!

Era o pensamento que ficava martelando na minha cabeça.

Quando voltei para casa, mal conseguia esconder minha ansiedade.

Naquela noite, dormi relativamente cedo.

Acordamos no sábado, tomamos café e começamos a arrumar a casa.

Minha mãe estava preocupada em deixar tudo organizado.

Eu, por outro lado, só queria ouvir o barulho de um carro parando em frente à nossa casa.

Segundo Rubens, eles chegariam por volta das dez da manhã.

Alice com a pequena Angela no colo , ao lado de Rubens , seu marido. Uma família perfeita.

Nove horas.

Nada.

Nove e meia.

Nada.

Dez horas.

Nada.

Ainda parecia normal.

Dez e meia.

Nada.

Onze horas.

Nada.

Meio-dia.

Nada.

Comecei a ficar irritado.

Eu não entendia como alguém podia dizer que chegaria às dez da manhã e simplesmente não aparecer.

Minha mãe percebeu minha inquietação.

— Calma, filho. Daqui a pouco eles chegam. Com certeza pegaram trânsito na estrada.

Eles moravam no interior de São Paulo e precisavam viajar para chegar até nós.

Eu tentei acreditar naquilo.

Uma hora da tarde.

Nada.

Duas horas.

Nada.

Três.

Nada.

Quatro.

Nada.

Cinco.

Nada.

Seis horas.

E nada.

A minha ansiedade já havia se transformado em frustração.

Eu estava decepcionado.

Minha mãe, porém, já não parecia apenas triste.

Ela estava preocupada.

— Estou preocupada — disse ela. — Alice e Rubens nunca foram de furar com ninguém. Acho que vou até a padaria ligar para a tia Salete, mãe da Alice, para saber se aconteceu alguma coisa.

Ela pegou algumas fichas telefônicas que guardava na bolsa e saiu em direção ao orelhão em frente à padaria.

Pouco depois, voltou.

E seu rosto não trazia uma resposta que pudesse nos tranquilizar.

Pelo contrário.

Ela estava ainda mais preocupada.

— E então? — perguntei.

Minha mãe olhou para mim.

— A tia Salete achava que eles já estavam aqui há muito tempo.

Meu coração apertou.

Se eles não estavam em nossa casa…

Onde estavam?

Naquela noite, a preocupação tomou conta de todos.

Tentamos assistir a um filme para passar o tempo.

Era o filme Amor e Morte.

Para uma criança de dez anos, porém, o filme era extremamente chato.

Não demorou muito para eu pegar no sono.

Não sei quanto tempo havia passado quando acordei assustado.

Era madrugada.

A casa estava escura.

Por alguns segundos, não entendi o que estava acontecendo.

Então ouvi.

Batidas na porta.

Fortes.

Insistentes.

E alguém chamava do lado de fora:

— Sandra! Sandra!

Minha mãe acordou assustada.

Patrícia, porém, parecia estar em outro mundo. Dormia profundamente e sequer se mexeu.

Eu me levantei na cama, com o coração disparado.

Minha mãe percebeu meu medo.

— Fique aí na cama, Michel. Vou ver o que é.

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

Então acrescentou:

— Parece a voz da tia Marlene.

Tia Marlene era outra irmã do meu pai.

Minha mãe levantou-se e caminhou até a porta.

Eu permaneci sentado na cama, tentando ouvir o que estava acontecendo.

Minha mãe abriu.

Tia Marlene entrou.

Ela estava aos prantos.

Desesperada.

Ao lado dela estava meu tio Paulo.

Os dois pareciam estar em estado de choque.

Eu nunca tinha visto adultos daquela maneira.

Minha mãe correu até minha tia.

— O que aconteceu?

Tia Marlene tentou falar, mas sua voz saía entrecortada pelo choro.

Então finalmente conseguiu dizer:

— Sandra… eles morreram.

Minha mãe ficou imóvel.

— Quem?

Minha tia começou a chorar ainda mais.

— Todos… os três. Rubens, Alice e Angela…

Meu corpo inteiro ficou gelado.

Ela continuou:

— Foi um acidente na estrada. Eles perderam o controle do carro e bateram de frente com um caminhão.

Eu ouvi aquilo.

Mas parecia que não estava ouvindo.

Alice?

Rubens?

Angela?

Mortos?

Não sei explicar o que aconteceu comigo naquele instante.

Talvez tenha sido uma reação de medo.

Talvez tenha sido simplesmente a maneira que uma criança de dez anos encontrou para fugir de uma realidade que não conseguia compreender.

Corri para debaixo da nossa cama.

E comecei a chorar.

Chorava compulsivamente.

Chorava sem conseguir parar.

Ouvia minha mãe desesperada, chorando junto com minha tia, e aquilo fazia meu medo aumentar ainda mais.

Eu não conseguia aceitar.

Alice não podia estar morta.

Ela era a pessoa que chegava à nossa casa sorrindo, perguntando pelo priminho mais lindo da família.

Ela me pegava no colo.

Ela me beijava.

Ela ria comigo.

Como alguém assim poderia simplesmente desaparecer?

Nunca mais eu receberia aquele carinho.

Nunca mais ouviria aquela voz.

Nunca mais veria aquele olhar amoroso.

Por quê?

Por quê?

Eu não tinha respostas.

Na manhã seguinte, minha mãe se preparou para ir ao velório.

A princípio, estava decidido que eu e Patrícia ficaríamos em casa.

Eu não deveria ir.

Era o que os adultos achavam melhor.

Mas, quando chegou a hora de minha mãe sair, alguma coisa dentro de mim mudou.

Comecei a chorar.

Pedi para ir.

Minha mãe tentou me convencer a ficar.

Minha tia também.

Mas eu insisti.

Insisti tanto que, finalmente, elas cederam.

Patrícia acabou tendo que ir também.

Quando chegamos ao velório, fiquei impressionado com a quantidade de pessoas.

Estava lotado.

Havia gente por todos os lados.

Parentes, amigos, conhecidos.

Aquela família enorme parecia ter se reunido inteira naquele lugar.

Foi então que vi meu pai.

Assim que me viu, ele veio até mim, me pegou no colo e começou a chorar.

Eu nunca tinha visto meu pai daquela maneira.

Ele estava destruído.

Pouco depois, ele acabou dando uma bronca na minha mãe por eu estar ali.

Para ele, eu era apenas uma criança e não deveria presenciar aquilo.

Minha mãe explicou o que havia acontecido.

Disse que eu havia insistido para ir e que não tinha conseguido me convencer a ficar em casa.

Depois de ouvir a explicação, meu pai ficou em silêncio.

Patrícia não queria chegar perto dos caixões.

Eu também não queria.

Havia alguma coisa naquele lugar que me assustava profundamente.

Mas, ao mesmo tempo, alguma força parecia me puxar para perto.

Eu não queria olhar.

Mas fui.

Aproximei-me lentamente.

O caixão estava bastante alto para mim, principalmente por causa da minha altura.

Precisei me aproximar mais para conseguir enxergar.

E então vi Alice.

Ela estava deitada.

Parecia estar dormindo.

Mas havia algo diferente em seu rosto.

Uma tristeza que eu nunca havia visto nela.

Naquele momento, me arrependi de ter chegado tão perto.

Comecei a chorar.

Chorei sem conseguir parar.

Não quis olhar para os outros caixões.

Não quis ver Rubens.

Muito menos a pequena Angela.

A imagem de Alice permaneceu gravada na minha cabeça.

Eu queria esquecer aquilo.

Queria voltar no tempo.

Queria que tudo aquilo fosse apenas um pesadelo.

Mas não era.

Alice estava morta.

E eu tinha acabado de descobrir, da maneira mais brutal possível, que algumas pessoas simplesmente desaparecem da nossa vida sem aviso.

Depois daquele dia, levou meses para que minha mente começasse a amenizar aquela imagem.

Durante muito tempo, eu não conseguia pensar em Alice sem lembrar dela dentro daquele caixão.

A lembrança aparecia quando eu estava acordado.

Aparecia antes de dormir.

E, principalmente, aparecia nos meus sonhos.

Se eu já estava tendo dificuldades na escola, aquilo piorou ainda mais minha situação.

Eu não conseguia me concentrar.

Os livros estavam diante de mim, mas minha cabeça estava longe.

E então começaram os pesadelos.

Quase sempre eram iguais.

Eu estava dentro de um carro.

Não sabia exatamente onde estava.

Havia outras pessoas comigo, mas eu nunca conseguia distinguir seus rostos.

O carro estava em alta velocidade.

Eu sentia o movimento.

O medo.

A sensação de que alguma coisa terrível estava prestes a acontecer.

Então vinha um clarão.

Um segundo de silêncio.

E, logo depois, a colisão.

O barulho era ensurdecedor.

Vidros se estilhaçavam.

Alguém gritava.

Eu tentava me mexer, mas parecia estar preso.

E então eu acordava.

Assustado.

Suando.

Com o coração disparado.

Às vezes, levava alguns segundos para perceber que estava na minha cama e que aquilo havia sido apenas um sonho.

Mas o medo permanecia.

Mal sabia eu que aqueles pesadelos não desapareceriam tão cedo.

Na verdade, eles me acompanhariam por muitos anos.

Por décadas.

Até os dias de hoje.

Como se as dores constantes no estômago já não fossem suficientes, agora eu carregava também aquelas imagens dentro da cabeça.

Eu tinha apenas dez anos.

E ainda não fazia ideia de que aquela noite mudaria para sempre a maneira como eu enxergaria a vida, a morte e, principalmente, o medo de perder alguém que amamos.

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