
*Abril de 2002 *
— Opa! Quase…
Falei assim que cheguei à lavanderia. Ela estava terminando de vestir a calça e, por muito pouco, não entrei bem na hora em que ainda estava se arrumando.
Ela olhou para mim e soltou, aliviada:
— Ufa… Quase que você me pega de calcinha!
Eu não perdi a oportunidade.
— Que pena… Se eu soubesse que você estava aí vestindo as calças, eu chegaria pisando em ovos, só para te ver de calcinha.
Ela abriu um sorriso, ficou vermelha e veio na minha direção. Deu um tapa de leve no meu ombro e disse:
— Mi! Você é muito safado! Kkkkk.
Eu comecei a rir.
Algumas situações simplesmente acontecem. E, mesmo depois de tantos anos, certas lembranças continuam tendo o poder de nos fazer sorrir.

*Agosto de 1984 *
Foi nessa época que comecei a cabular aulas.
No começo, eu esperava minha irmã entrar no colégio. Assim que Patrícia desaparecia pelo portão, eu disfarçava, virava as costas e ia embora.
Era para ser apenas uma vez.
Depois aconteceu novamente.
Uma vez por semana virou duas. Duas viraram três. Até que, quando percebi, já estava cabulando aulas durante semanas inteiras.
Eu saía andando sem rumo. Conhecia outros bairros, passava por ruas que nunca tinha visto antes, sentava em alguma calçada ou praça e ficava ali, simplesmente observando o movimento das pessoas.
Às vezes, nem sabia exatamente o que estava fazendo.
Eu apenas não queria entrar naquele colégio.
Depois de algumas horas, voltava para perto da escola e esperava minha irmã sair. Fazia de conta que tudo estava normal e voltávamos para casa juntos.
É claro que Patrícia percebeu.
Ela demorou pouco para descobrir o que eu estava fazendo.
Um dia, ela me chamou de lado e falou:
— Michel, você está cabulando aula. Se a mãe descobrir…
Ela fez uma pausa e continuou:
— A professora Ana veio me perguntar por que você não estava indo. Eu disse que você estava doente. Para com isso. Se não, vou contar para a mãe e para o pai.
Naquele momento, fiquei assustado.
— Patrícia, não faça isso, por favor. Se o pai descobrir, ele me mata.
Ela me olhou com aquela expressão de quem realmente queria entender o que estava acontecendo comigo.
— Por que você faz isso? Por que não gosta de estudar?
Baixei os olhos.
— Eu não sei… Não consigo.
Ela insistiu:
— Você é inteligente. Por que ficou desse jeito?
Aquelas perguntas começaram a me irritar.
Talvez porque eu também não soubesse responder.
Talvez porque, no fundo, eu estivesse cansado de ouvir que era inteligente quando eu mesmo não conseguia entender o que estava acontecendo dentro da minha cabeça.
Então, em vez de responder, ataquei.
— E você? Como consegue ser assim? A mãe trocando de namorado toda hora… Nossa casa parece um salão de forró! Aquelas amigas estranhas da mãe… Como você consegue ficar calma com essa gentalha entrando em casa? A mãe bebendo, ficando bêbada… Hein? Como consegue? Me diz!
Patrícia simplesmente me olhou.
Calmamente.
Depois respondeu:
— Eu não ligo. Por mim…
E ficou por isso mesmo.
Aquela resposta indiferente me deixou boquiaberto.
Como alguém conseguia ser daquele jeito?
Será que ela era insensível?
Será que tinha alguma coisa errada com ela?
Ou será que, no fundo, Patrícia era a pessoa certa naquela história?
Afinal, ela parecia feliz.
Podia cair o mundo ao nosso redor e ela continuava ali. Estudava, dormia, fazia suas coisas e seguia em frente como se nada fosse capaz de abalá-la.
Eu não conseguia fazer isso.
Será que eu era muito fraco?
Naquele momento, cheguei a uma conclusão simples e dolorosa:
Sim.
Devia ser isso.
Eu era fraco.
Enquanto tudo isso acontecia, meu pai continuava dando dinheiro apenas quando queria. E, quando dava, quase nunca era o suficiente.
Às vezes, eu ficava pensando que, se aquela situação acontecesse nos dias de hoje, talvez ele tivesse problemas sérios com a Justiça. Ou talvez não. Talvez, justamente por isso, acabasse pagando uma pensão decente todos os meses, sem falta.
Mas naquela época as coisas eram diferentes.
E a nossa situação dentro de casa estava ficando cada vez pior.
O café da manhã era praticamente sempre a mesma coisa: um pão para cada um e um copo de café com leite.
No almoço, muitas vezes era sopa de fubá.
Na janta, novamente sopa de fubá.
Era uma alimentação simples, repetitiva e, principalmente, insuficiente para duas crianças.

Quando minha mãe arrumava um namorado novo, a situação melhorava um pouco.
Eles apareciam trazendo coisas gostosas para nós. Algumas vezes traziam comida, outras vezes alguma coisa diferente para casa. Por alguns dias, parecia que a vida tinha melhorado.
Mas depois eles desapareciam.
Como sempre.
Naquela época, eu já começava a perceber algumas coisas.
Estava na cara que muitos daqueles homens se aproximavam da minha mãe interessados apenas em levá-la para a cama. Depois que conseguiam o que queriam, enjoavam e desapareciam.
E havia outro detalhe: muitos dos homens que se envolviam com ela eram casados.
Eu era criança, mas não era completamente alheio ao que acontecia ao meu redor.
Comecei a sentir falta de coisas que, antes, pareciam absolutamente normais.
Chocolate.
Bolacha recheada.
Frutas.
Pequenos doces.
Coisas simples que, naquela época, começaram a parecer verdadeiros luxos.
Enquanto isso, eu via dinheiro sendo gasto com cerveja.
Mais tarde, descobri que nem sempre era minha mãe quem pagava. Muitas vezes eram os amigos e namorados dela que davam o dinheiro para ela e para as amigas, principalmente Dolores, comprarem as bebidas.
Eles esperavam o final da semana.
Então se reuniam em casa para beber, dançar e se divertir.
Para mim, aquilo tudo era uma realidade estranha. Eu via adultos vivendo daquela maneira enquanto nós, dentro de casa, tínhamos dificuldade até para comer direito.
Todas as quartas e sextas-feiras, quando voltava da escola, eu passava por uma feira.
E havia uma barraca que sempre chamava minha atenção.
A barraca de frutas.
Principalmente as maçãs.
Eu ficava olhando para aquelas maçãs frescas, vermelhas e brilhantes. Às vezes, chegava a sentir água na boca.
Eu imaginava como seria morder uma delas.
Uma maçã vermelha, suculenta, doce.
Era uma coisa tão simples.
Mas, para mim, naquele momento, parecia um sonho.
Até que um dia Patrícia ficou doente e passou uma semana sem ir ao colégio.
Aproveitei que estava sozinho e passei pela feira.
Parei em frente à barraca das maçãs.
Fiquei olhando.
Disfarcei.
Olhei para os lados.

Cheguei um pouco mais perto da banca.
Meu coração começou a bater mais forte.
Então, sem que ninguém percebesse, peguei uma maçã e coloquei no bolso.
Comecei a andar.
Dei alguns passos.
E então saí correndo.
O problema é que uma mulher que estava em outra banca tinha me observado sem que eu percebesse.
Assim que saí correndo, ela veio atrás de mim.
Conseguiu me alcançar, segurou meu braço com força e gritou:
— Calma aí, seu trombadinha! Ladrãozinho sem-vergonha! Você roubou uma maçã! Devolva agora!
Fiquei branco.
O medo tomou conta de mim.
Comecei a tremer e simplesmente não sabia o que fazer.
Fiquei petrificado.
Então apareceu outro homem. Ele segurou meu outro braço e falou, ainda mais agressivo:
— Seu trombadinha, filho de uma puta! Vou te dar uma lição!

Naquele momento, desabei.
Comecei a chorar.
Pedia desculpas, perdão, dizia que não faria novamente.
Eu estava apavorado.
Aos poucos, porém, a mulher e o homem perceberam que havia alguma coisa diferente naquela situação.
Eu não tinha jeito de alguém acostumado a roubar.
Era apenas uma criança assustada.
Além disso, todas as pessoas que estavam na feira tinham parado para olhar.
Eu estava no centro daquela cena, morrendo de vergonha.
Então me ajoelhei e falei, chorando:
— Desculpe, meu senhor… Prometo que não faço mais isso. Eu só estava com fome…
Um silêncio ensurdecedor tomou conta do lugar por alguns segundos.
A mulher que estava furiosa comigo mudou completamente de expressão.
Ela se ajoelhou na minha frente e falou:
— Calma, menino… Pare de chorar. Eu acredito em você.
O homem que segurava meu outro braço também pareceu se acalmar.
— Você não tem jeito de trombadinha, não. Mas, quando for assim, é só pedir, tá bom?
Eu continuei chorando.
— Tá… Eu prometo que, na próxima vez, eu peço. Posso ir embora agora?
Foi então que a dona da banca de maçãs apareceu.
Ela trazia duas maçãs nas mãos.
Olhou para mim e disse:
— Claro que pode, menino. Leva essas duas maçãs para você. Vá com Deus e não faça mais isso, está bem?
Depois perguntou:
— Ah! Qual é o seu nome, meu anjo?
— Michel.
Ela sorriu.
— O meu é Fátima, tá?
— Tá bom, dona Fátima. Eu prometo. Muito obrigado.
Peguei as duas maçãs e fui embora.

Cheguei em casa com os olhos vermelhos e o rosto inchado de tanto chorar.
Mas estava feliz.
Eu tinha duas maçãs.
Patrícia percebeu imediatamente que havia alguma coisa errada.
— O que aconteceu, Mi? Você chorou?
Eu não queria contar a verdade.
Então respondi:
— Sim. Eu briguei com o Júnior. Saímos no tapa.
Patrícia ficou me olhando.
Aquela cara dela dizia claramente que ela não tinha acreditado em uma única palavra.
Mesmo assim, não insistiu.
Então tirei as maçãs e falei:
— Olha só o que a moça da feira me deu! Duas maçãs! Uma para mim e outra para você!
Patrícia abriu um sorriso enorme.
— MAÇÃ?! OBA!
E nós comemos aquelas maçãs como se fossem as últimas existentes no planeta.
Talvez, para nós, naquele momento, fossem mesmo.
Outra coisa que me incomodava muito era o fato de quase não termos roupas.
Por várias vezes eu ia para a escola usando uma calça que ainda estava molhada, porque não havia tempo suficiente para secar.
Eu colocava a roupa no ferro de passar na tentativa de amenizar a situação.
Com as meias era a mesma coisa.
Quase não tínhamos meias suficientes e, algumas vezes, eu saía de casa usando meias ainda úmidas.
Eu não sabia exatamente como outras pessoas viviam.
Para mim, aquela era a realidade.
Muito tempo depois, descobri uma coisa que me marcou.
Minha mãe, às vezes, saía para almoçar com os funcionários da farmácia onde trabalhava.
E, durante algumas dessas refeições, ela chorava.
Chorava enquanto comia um almoço saboroso e reforçado.
Enquanto isso, eu e minha irmã ficávamos em casa comendo arroz com ovo ou caldo de fubá.
Leonor, a gerente da farmácia, percebeu o que estava acontecendo.
Até que, certo dia, minha mãe contou a ela sobre nossa situação.
Leonor, que muitas vezes já pagava o almoço da minha mãe, começou a comprar marmitas e mandar para mim e para Patrícia quando podia.
Não era sempre.
Era de vez em quando.
Mas, naquela época, uma marmita podia significar muito.
E meu pai?
Bom…
Meu pai dava algum dinheiro, mas nunca era suficiente.
Apesar de passar sempre em casa, dizia que estava apertado e que estava fazendo o que podia.
Até esqueci de mencionar uma coisa: meu pai havia saído do CPD da faculdade onde trabalhou durante anos.
Além disso, dava para perceber que ele estava completamente envolvido com a nova namorada.
Ele estava muito diferente.
Mas um dia minha mãe perdeu a paciência.
Dessa vez, conseguiu falar com ele com muito mais fervor.
— O Michel só tem duas calças! A Patrícia também! Esse dinheiro que você nos dá não paga nem uma cesta básica!
Ela falou.
Falou.
Falou mais.
Não sei exatamente o que aconteceu dentro da cabeça dele depois daquela conversa.
Mas, alguns dias depois, meu pai apareceu em casa com uma compra gigantesca de supermercado.
Trouxe tanta coisa que parecia que estávamos abastecendo a casa para meses.
Também comprou várias roupas novas para mim e para minha irmã.
Eu ganhei três pares de tênis, cinco calças, moletom e outras peças de roupa.
Para Patrícia, praticamente a mesma quantidade.
E ainda deu um Walkman para cada um de nós.
Aquilo foi uma mudança enorme para mim.
Eu tinha roupas novas.
Tênis novos.
E até um Walkman.
Minha mãe, porém, ficou desconfiada.
Ela não conseguia entender de onde ele havia tirado tanto dinheiro, já que vivia dizendo que estava apertado.
Naquela época, meu pai tinha pegado parte do dinheiro que recebeu do Fundo de Garantia e começou a viajar para o Paraguai.
Ele criou um consórcio de videocassetes e filmadoras.
Meu pai sempre teve uma cabeça muito criativa para empreender.
Ele enxergava oportunidades onde outras pessoas talvez não enxergassem.
E aproveitava as viagens ao Paraguai para trazer coisas para nós.
Ele costumava ir acompanhado da namorada, a tal Solange.
Mas o ano estava chegando ao fim.
E, então, veio outra coisa que eu jamais esqueceria:
fui reprovado no colégio pela primeira vez.
Minha mãe não se conformava.
Meu pai, muito menos.
Ele ficou extremamente decepcionado.
Eu sempre tinha sido motivo de orgulho para ele, e agora estava diante de uma reprovação que, para ele, parecia inexplicável.
Certo domingo, ele me pegou para conversar.
Na verdade, aquilo estava mais para um sermão.
Ele estava furioso.
Perguntava repetidamente por que eu não tinha levado os estudos a sério.
Eu ficava olhando para ele em silêncio.
Por dentro, tinha vontade de falar tudo.
Queria contar o que estava sentindo.
Queria explicar por que eu não conseguia estudar.
Queria falar sobre a nossa casa, sobre a fome, sobre a confusão, sobre tudo aquilo que acontecia ao meu redor.
Mas eu não tinha coragem.
E, nessas horas, meu estômago começava a doer.
Meu pai percebia e ficava ainda mais irritado.
— Agora o estômago dói, né? Pare com essa frescura, moleque!
E aquilo só fazia meu estômago doer ainda mais.
Então ele continuava:
— A Patrícia foi aprovada com notas altas, de sobra! Agora, mesmo sendo mais nova que você, ela já te alcançou. E, pelo jeito, logo vai te passar!
Eu permanecia calado.
Por fora, parecia apenas um menino levando uma bronca.
Por dentro, havia uma mistura enorme de sentimentos.
Medo.
Raiva.
Vergonha.
Tristeza.
E alguma coisa que eu mesmo não conseguia explicar.
O mais estranho era que, ao mesmo tempo em que eu queria desesperadamente contar tudo o que estava sentindo, uma pequena parte de mim sentia certo prazer em vê-lo nervoso.
Eu olhava para ele e pensava:
“Está nervoso, pai?”
E, pela primeira vez, pensei algo que jamais teria coragem de dizer em voz alta:
“Isso é só o começo…”